6# GERAL 14.5.14

     6#1 JUSTIA  O FALSO QUILOMBO DO MINISTRO
     6#2 GENTE
     6#3 CRIME  A RODA INSANA DA VINGANA
     6#4 COPA  VOU AT O INFERNO COM ELES
     6#5 COPA  NCENRIO DE POUCA BELEZA
     6#6 VIDA DIGITAL  OLHA QUEM EST FALANDO
     6#7 SOCIEDADE  QUINZE VEZES PRINCESA
     6#8 SADE  SEMPRE H O QUE SER FEITO
     6#9 GUSTAVO IOSCHPE  PROFESSORES, ACORDEM!

6#1 JUSTIA  O FALSO QUILOMBO DO MINISTRO
Por interferncia da Secretaria-Geral da Presidncia, o governo ignora ordem de despejo em base naval da Bahia.

     O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidncia, exerce, no governo, o papel de interlocutor com os movimentos sociais.  um cargo destinado a manter de prontido grupos de agitadores profissionais que fingem defender causas, mas se mobilizam mesmo  por dinheiro. Carvalho cumpre essa funo com muita eficincia e se desdobra para manter a fidelidade das legies. Para isso, vale at compactuar com a tentativa de enganar a Justia Federal, como tem ocorrido nos ltimos quatro anos com uma ordem de reintegrao de posse na Base Naval de Aratu, na regio metropolitana de Salvador, na Bahia. O governo faz de tudo para protelar a deciso judicial de retirada de 46 famlias instaladas na base da Marinha. Por duas vezes, os assessores do ministro convenceram o juiz Evandro Reimo dos Reis a adiar o cumprimento da deciso, sob a alegao de que estavam negociando a transferncia dos invasores para outro lugar. Nos bastidores, porm, eles se autodeclararam quilombolas, descendentes de escravos com ligao histrica com aquele pedao de terra. Ocorre que boa parte dos invasores  to quilombola quanto Clint Eastwood  apache. Muitos nasceram no interior da Bahia e em outros estados. Nesse grupo se encontra at a centenria Luiza da Conceio, apresentada como a memria viva do suposto quilombo. Um dos documentos enviados ao Incra para o reconhecimento do quilombo  forjado. Datado de 1988, o papel traz um endereo com CEP que passou a existir apenas em 1992 e um nmero de telefone com oito dgitos, mudana que s veio a ocorrer oito anos depois. 
     Mesmo assim, os invasores foram considerados quilombolas por decreto e passaram a reivindicar metade da rea da base, incluindo a barragem que fornece gua aos militares. "As negociaes a favor dos 'quilombolas' comearam a ser feitas por assessores da Secretaria-Geral da Presidncia, que falavam em nome do prprio Gilberto Carvalho", diz o vice-almirante Antnio Fernando Monteiro Dias, que comandou o 2 Distrito Naval da Marinha em Salvador at dois meses atrs, quando passou  reserva em protesto contra os rumos do caso. 
     Em maro, o juiz Reimo dos Reis determinou novamente a reintegrao de posse e incluiu, em sua deciso, um desabafo: "A Unio, com visvel desinteresse, tem procrastinado o cumprimento da ordem judicial". No entendimento do juiz, o fato de os posseiros terem sido transformados em quilombolas no muda em nada o processo inicial de reintegrao de posse. Na semana passada, os emissrios de Gilberto Carvalho ofereceram, apesar do parecer contrrio da Marinha, uma rea de 104 hectares para a demarcao do quilombo. Os posseiros, que em sua maioria sobrevivem de programas assistenciais, insistem em ficar com 301 hectares. Incentivados que foram pelo prprio governo, no se pode culp-los. 
LEONARDO COUTINHO


6#2 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marilia Leoni, Tasa Szabatura e Thas Botelho

JOGUEM NO GOOGLE E CONFIRAM
Basta um fotgrafo apontar a cmera para seu adorvel rostinho e a atriz MARIA CASADEVALL comea a mostrar a lngua ou fazer careta. Ela j foi flagrada danando sozinha na praia, desfilou para um amigo estilista com um vestido de noiva mnimo e preto e  da turma de famosos que diz "no saber lidar com a fama". Mas mostra um atestado de autenticidade no forada: preferiu no assinar contrato longo com a Globo para poder se dedicar a um filme e a um seriado, num canal fechado, em que vive uma maluca que no deixa o ex-namorado em paz. Nenhuma coincidncia entre vida e arte. Ela continua ficando com o ator Caio Castro e tem uma resposta engraadinha quando algum pergunta se eles esto namorando: "Joga no Google".

UM VERDADEIRO CAPITAL ABERTO
Intelectual francs mais festejado pelos gauchistes desde Jean-Paul Sartre, o economista THOMAS PIKETTY mal comeou a saborear a fama globalizada e j viu seu capital privado ser exposto s massas. Um caso que teve em 2009 com AURLIE FILIPPETTI acabou na delegacia e foi recuperado com a sbita notoriedade dele. Acusado por Aurlie de agredi-la, o autor de O Capital no Sculo XXI, casado com uma economista com quem tem trs filhas, chegou a prestar depoimento, mas a amante retirou a queixa para proteger sua vida privada. Uma preocupao que Aurlie, hoje ministra da Cultura, no demonstrou ao escrever um romance com nomes trocados sobre sua paixo por outro homem casado. Agora retrucado peta mulher do envolvido, que  escritora profissional e contou como a ex-amante do marido fazia o gnero Atrao Fatal: "gruda, persegue e, se rejeitada, tem ataques. O livro foi premiado e, como ministra, Aurlie apresentou a cerimnia. Algum ainda quer falar em desigualdade de renda? 


FAIXA PRETA EM ALTO-ASTRAL
Nas primeiras trs semanas de vida de seu novo programa, SABRINA SATO atingiu 10 pontos de mdia no Ibope, ficando atrs apenas do Jornal Nacional, seu concorrente gigante do sbado  noite. Provveis razes: 1) Os diretores modulam suas falas sem tirar delas o ar nonsense. Sabrina tem visitado um psiclogo ("Tenho dficit de ateno e no me concentro") e um fonoaudilogo ("Para falar as palavras direito"); mas o teleprompter foi abolido e a orientao pelo ponto, relaxada. 2) Ela sorri e levanta o astral do programa o tempo todo. "At em quadros de emoo, ela faz a pessoa rir em minutos", analisa Karina, irm e empresria da apresentadora. Parte dura: "Gravo dez horas por dia, seis vezes por semana", diz Sabrina

COMPLICAO NA VIDA DE CLOONEY
Enquanto era conhecida como a advogada de Julian Assange, a libanesa AMAL ALAMUDDIN provocava suspiros de admirao no mundo liberal chique onde seu futuro marido, o ator George Clooney, costuma circular. Mocinhos e bandidos claramente definidos so coisa de cinema, e a nova causa de Amal, nascida em uma famlia drusa do Lbano, radicada em Londres e ex-estagiria de Snia Sotomayor, hoje na Suprema Corte americana, deixa isso mais claro ainda:  o sinistro Abdullah al-Senussi, ex-brao-direito e cunhado de Muamar Kadafi, notrio por comandar no s atrocidades contra lbios como atentados terroristas que mataram cidados americanos, britnicos e franceses. Mas o argumento de Amal  bom: defende que o bicho ruim seja julgado em Haia e no na catica Lbia ps-Kadafi.


6#3 CRIME  A RODA INSANA DA VINGANA
O linchamento da dona de casa do Guaruj  uma barbrie que j pode ter produzido outra: o assassinato de assassinos
MARIANA BARROS E GIAN KOJIKOVSKI

     At meados do sculo passado, o Guaruj, no litoral paulista, era comparado a Miami, na Flrida, por atrair turistas endinheirados s suas belas praias. Conhecido como Prola do Atlntico, o balnerio era famoso pelas festas do Iate Clube e pelos passeios de barco pela costa. Com o boom imobilirio dos anos 70, entrou em uma amarga decadncia. A chegada de migrantes pobres em busca de emprego na construo civil e a revoada dos ricos para o Litoral Norte condenaram o Guaruj  degradao e ao abandono. Condomnios como o Jardim Acapulco, onde dolos do futebol como Pel e Robinho ainda mantm casa, ficaram como uma melanclica lembrana do passado. Hoje, a cidade tem 46 favelas, nas quais vive um tero da populao.  a 14 mais violenta do estado, com uma taxa de quinze homicdios para cada 100.000 habitantes, quase 50% mais alta que a da capital: 9,9 homicdios para cada 100.000 habitantes. 
     No ltimo sbado (3), um crime brbaro distanciou ainda mais o Guaruj da imagem de uma Miami ensolarada para aproxim-lo de outra cidade americana, Salem, em Massachusetts. Foi l que, no sculo XVII, cerca de vinte mulheres morreram enforcadas por acusaes de prtica de bruxaria por um tribunal popular. O episdio entrou para a histria como um dos mais dramticos exemplos do que pode produzir a histeria das massas. "A ira da multido leva a aes irracionais sobretudo nos locais onde a populao no confia nas instituies'', diz o advogado Miguel Reale Jnior. Assim foi no Guaruj. 
     Na manh de sbado, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, saiu pelas ruas do bairro Morrinhos, onde vivia com as duas filhas, de 13 anos e 1 ano, e o marido, para buscar uma Bblia que havia esquecido na igreja. No caminho, encontrou uma criana e ofereceu a ela uma banana que havia acabado de comprar. Foi o suficiente para ser confundida com uma sequestradora cujo retrato falado circulava pelo bairro, e que usaria meninos e meninas em rituais de magia negra. 
     A histria ganhou fora em um perfil no Facebook intitulado Guaruj Alerta. A pgina divulgou um retrato falado de uma mulher acusada de capturar crianas que havia sido feito em 2012 no Rio de Janeiro. Algum tratou de associar o retrato  foto de uma loura desconhecida, em postagem fartamente compartilhada. Na manh em que foi morta, Fabiane, que tinha os cabelos escuros, acabara de tingi-los de um tom entre o loiro e o avermelhado. A mudana ajudou a selar a tragdia. Ao ser vista oferecendo a banana  criana, ela foi relacionada  bruxa sequestradora de crianas. "Acertaram um soco em sua boca, e ela logo caiu, no teve tempo de falar nada", disse uma vizinha. 
     Imediatamente, a informao de que a "bruxa da magia negra" havia sido pega espalhou-se por meio de aplicativos de mensagens instantneas  300 pessoas chegaram para assistir ao linchamento e participar do ato violento, que durou duas horas. Fabiane foi arrastada por 400 metros e caiu algumas vezes. A ltima foi em uma rua de barracos sustentados por palafitas fincadas no mangue. "Um barraco veio ao cho, de tanta gente que tinha aqui", diz a moradora Elizabeth Maria da Silva. Testemunhas gravaram uma chocante sequncia de pauladas, socos, pontaps desferidos pela multido contra a dona de casa. As cenas ganharam a internet e agora so as principais armas da polcia para identificar os envolvidos. 
     Quatro j esto presos. Um deles afirmou  polcia que outros dois participantes do linchamento foram executados por traficantes, temerosos de que a repercusso do caso continue a atrair a ateno da polcia para a regio. Na tera (6), mais um linchamento ocorreu, em Foz do Iguau, no Paran. Tas Cristina Martins, de 13 anos, foi morta a pedradas por duas adolescentes, supostamente por ter ficado com o namorado de uma delas. Assim como pode ter acontecido com alguns dos algozes de Fabiane, as assassinas de Tas por pouco no foram mortas pela populao. 
     No caso de Fabiane, o Estado falhou ao no se fazer presente onde era dramaticamente necessrio. E, tudo indica, fracassou uma vez mais ao impedir que mais assassinatos ocorressem a pretexto de vingar o primeiro. Cabe ao Estado o monoplio do uso da fora justamente para evitar que um crime redunde em outro. O preo do malogro em estancar a roda da barbrie  um mundo pr-hobbesiano. E dele no se pode esperar mais do que misria e brutalidade. 


6#4 COPA  VOU AT O INFERNO COM ELES
A seleo do Felipo pode no ser uma boa rima, mas  a melhor soluo. Sem nenhuma grande ausncia, ter um ms de paz at a estreia, contra a Crocia.
LESLIE LEITO

     Em 2002, acuado pela voz das ruas que exigia Romrio na seleo, Felipo reservou um quarto em hotel diferente do da cpula da CBF para ter um pouco de trgua antes do anncio final dos jogadores para a Copa. At o ento presidente FHC clamou pelo "baixinho", que no foi chamado e no fez falta  a seleo voltou da sia com o penta. Na semana passada, dada a inexistncia de celeuma, Felipo divulgou os 23 distante de pio ou choro. Para antecipar o ms de calma paradisaca entre a listagem sem grita e a estreia, o treinador avisou: "Vou at o inferno com meus jogadores". Terminar o torneio sem o hexa os levar  fogueira dos derrotados. Mas, como vivemos agora o mais longo dos meses,  hora de entender o que representa esse interregno pacfico.  
     Se no houve apelo como o de Romrio em 2002, ou o de Neymar e Ganso em 2010, descartados, a atual convocao soou unnime como a de 2006, quando Ronaldo, Ronaldinho Gacho e cia., grvidos de soberba, enxergavam o mundo de um pedestal e fracassaram. Concluso: tanta tranquilidade a um ms do incio dos jogos no  sinnimo de ttulo, tampouco a tempestade prvia resulta em derrota. Mas h algo que Felipo conseguiu ao harmonizar sua lista com a do povo: pouco mais de trinta dias de tolerncia e a certeza de, na derrota, no ser cobrado por ter levado os jogadores errados, como aconteceu com Dunga h quatro anos. 
     Ante os fracassos canarinhos nas ltimas duas copas, mudou-se quase tudo  da seleo de Dunga sobraram no time titular de agora apenas o goleiro Jlio Csar, o zagueiro Thiago Silva e o lateral Daniel Alves,  pouco. Na seleo de 2006 em relao  de 2002, havia cinco titulares comuns s duas equipes. O treinador explica a ruptura: "Esses jovens tm ambio". Convm lembrar, contudo, que no so nem to jovens assim: a chamada famlia Scolari de 2002 tinha uma mdia de idade de 26,5 anos. Agora  de 27,7 anos. Em 2002, dois jogadores tinham sido eleitos os melhores do mundo (Ronaldo e Rivaldo). Hoje, nenhum. D para chegar a alguma concluso definitiva a partir desse conjunto de informaes que revela uma seleo inexperiente? No. Mas  evidente um cheiro de novidade que s pode ser bom, sem vcios do passado. A seleo  ao menos ela, o pas menos  comear a Copa em paz. Paz que ecoou at mesmo nas reunies da comisso tcnica para definir os nomes.  espera da resposta do exame mdico do atacante J, do Atltico Mineiro, que se machucara dias antes, um dirigente da CBF brincou com Felipo: "S no vai inventar o Robinho". Robinho s vai para a Copa no lbum de figurinhas que virou mania nacional   o nico que, colado nas pginas, no colou para Felipo. 

DEPOIS DA TEMPESTADE, NEM SEMPRE VEM A BONANA
As trs convocaes anteriores e o desempenho na Copa
2002  TEMPESTADE - O pas clamou por Romrio, a ponto de o ento presidente Fernando Henrique Cardoso entrar no lobby. Felipo bateu o p e ignorou a comoo nacional, optando por Luizo.
RESULTADO  Penta

2006  BONANA - Carlos Alberto Parreira levou todos os grandes craques gordinhos e relaxados: Ronaldo, Ronaldinho Gacho, Roberto Carlos e cia. 
RESULTADO  Eliminao nas quartas, contra a Frana (1x0)

2010  TEMPESTADE - Dunga ignorou as duas principais promessas do futebol brasileiro  poca, os meninos da Vila Neymar e Ganso. O atual camisa 10 de Felipo perdeu seu lugar para o atacante Grafite.
RESULTADO  Derrota nas quartas para a Holanda (2x1)

SELEO 2014
GOLEIROS 
- Jlio Csar  Toronto FC (Canad)
- Gefferson - Botafogo
- Victor - Atltico-MG

ZAGUEIROS
- Thiago  Silva - Paris Saint-Germain (Frana)
- David Luiz  Chelsea (Inglaterra)
- Dante - Bayern de Munique (Alemanha)
- Henrique  Napoli (Itlia)

LATERAIS
- Daniel Alves - Barcelona (Espanha)
- Maicon  Roma (Itlia)
- Marcelo  Real Madrid (Espanha)
- Maxwell - Paris Saint-Germain (Franca)

MEIAS
- Ramires  Chelsea (Inglaterra)
- Luiz Gustavo  Wolsburg (Alemanha)
- Paulinho  Tottenham (Inglaterra)
- Fernandinho  Manchester City (Inglaterra)
- Hernanes  Inter de Milo (Itlia)
- Oscar  Chelsea ( Inglaterra)
- Willian  Chelsea (Inglaterra)

ATACANTES
- Bernard  Shakhtar Donetsk (Ucrnia)
- Hulk  Zenit (Rssia)
- Fred  Fluminense
- J  Atltico-MG
- Neymar  Barcelona (Espanha)


6#5 COPA  NCENRIO DE POUCA BELEZA
A bandidagem carioca se sente  vontade para minar as UPPs e bater recorde de assaltos. A torcida  para que os reforos garantam a paz na Copa  e tambm depois dela.
LESLIE LEITO

     Quando as Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) surgiram no horizonte da segurana pblica, o pas saudou a iniciativa como um caminho acertado para minar o poder da bandidagem e conter os galopantes ndices de criminalidade no Rio de Janeiro. Cenas cinematogrficas de blindados da Marinha cruzando vielas e de bandeiras do Brasil fincadas no QG dos marginais ecoaram mundo afora e soaram como nctar para os cartolas estrangeiros, temerosos de que uma escalada de violncia coincidisse justamente com a Copa do Mundo  ocasio em que so aguardados no Rio mais da metade dos turistas. Com uma s tacada, portanto, seria debelado um problema de dcadas e ainda haveria resposta imediata  cartolagem aflita por um espetculo pacfico tambm fora dos gramados. Estrategicamente, as UPPs foram sendo plantadas prximo  rota turstica, formando o chamado "cinturo da Copa". A um ms do torneio, porm, a situao preocupa o comando da segurana local e reverbera no exterior  a ponto de o chefe de segurana da comitiva inglesa, sem saber que estava sendo ouvido, se dizer "apavorado". No  um pavor injustificado: os bandidos de reas ditas pacificadas esto se sentindo  vontade para recuperar territrios, afrontar a polcia com seus fuzis e fazer o medo descer dos morros ao asfalto. 
     Desde a estreia das UPPs, em 2008, a criminalidade  Rio declinava ano a ano como consequncia direta das bases policiais nas favelas, que refrearam a ao das quadrilhas. Foi em 2013 que a tendncia comeou a mudar: os homicdios voltaram aos patamares do incio da UPP e os registros de assaltos a mo armada e de roubo de carros chegaram a picos nunca antes alcanados desde a primeira medio no estado, h doze anos. Um levantamento de VEJA, com base em dados do Instituto de Segurana Pblica do Rio, mostra que na regio do Cristo Redentor, o mais visitado carto-postal carioca, os assaltos subiram 46% s nos primeiros trs meses de 2014, enquanto nas nobres redondezas de Ipanema e Leblon eles dispararam quase 100%. No entorno do Maracan, cenrio da grande festa, so em mdia quinze assaltos por dia. Na semana passada, o caso de um menino de 8 anos alvejado na cabea chocou pela banalidade; ele saa da escola, vizinha ao estdio, quando se viu em meio a um tiroteio liderado pelo chefo de um  morro da regio. At a ltima sexta-feira, sua vida estava por um fio. Uma das explicaes para a marcha a r na segurana pblica do Rio se resume  imagem do "cobertor curto": com 90% dos 10.000 policiais formados nos ltimos cinco anos alocados em favelas com UPP, as ruas ficaram desguarnecidas. O antroplogo e ex-oficial do Bope Paulo Storani dimensiona o tamanho do gargalo. "Seria necessrio mais do que dobrar o efetivo no asfalto para frear o avano do crime", calcula. As mazelas no so apenas numricas: v-se um misto de despreparo e lenincia na tropa que supostamente deveria desarticular e prender as gangues  os oficiais no agem ora por desconhecimento do territrio, ora por puro medo e s vezes at em nome de acordos esprios. Ou ainda em razo de um mandamento que rege informalmente vrias UPPs. "As ordens superiores so para evitar o confronto, de modo a no arranhar ainda mais a imagem do programa", diz um sargento baseado na Rocinha. 
     Todas essas questes fazem da tropa alvo fcil para os criminosos, que tm disparado chumbo grosso contra os PMs que se estabelecem em seus domnios: s neste ano, foram quatro mortos e 26 feridos  um recorde da era UPP. O Complexo da Mar, uma das primeiras vistas que o turista tem ao deixar o aeroporto internacional,  caso emblemtico: o peloto do Exrcito que ocupou recentemente a rea j foi atacado por traficantes cinquenta vezes   isso mesmo  em um nico ms. Sinal claro de que os bandidos continuam com bom poderio blico (s ali, dos estimados 500 fuzis, apenas um foi apreendido). Vigiados em seu habitat, os bandos bem armados fazem o que j era esperado: partem para o asfalto com o objetivo de diversificar suas atividades.  verdade que alguns integrantes do alto escalo do crime carioca foram presos, mas seu imprio est muito bem sustentado pela bandidagem  solta. S  base de investigao e persistncia as gangues sero expurgadas. Mas a reside um ponto sensvel, ainda circunscrito aos bastidores dos gabinetes: nos ltimos anos, as investigaes da Polcia Civil do Rio tm andado devagar, quase parando. "Desavenas com a cpula da Secretaria de Segurana fizeram as delegacias praticamente deixar de investigar as quadrilhas", explica um alto quadro da corporao. 
     Sabe-se que as clulas criminosas, uma vez espantadas de seus domnios, procuram asilo noutras bandas, fortalecendo novos redutos. Passado um tempo, porm, muitas vezes retornam aos velhos bunkers. No Complexo do Alemo  que no fica exatamente na trilha turstica, mas concentra poder de fogo para irradiar o terror pela cidade , os traficantes esto agora sob a liderana de um dos foragidos da ocupao de 2010. Luciano Martiniano da Silva, o Pezo, figura com pendor para a selvageria que tutela moradores e promove seus prprios tribunais de execuo. A Fifa acompanha tudo de olhos arregalados, e o poder local tenta apaziguar os nimos acenando com um bem-vindo reforo na tropa: para a Copa, o efetivo policial dobrar nas ruas e a promessa  de monitoramento constante da movimentao dos bandos. Pelo sim, pelo no, alguns consulados j produziram manuais que enfatizam a importncia de evitar favelas e no reagir a assaltos. A torcida  para que a civilidade vena a barbrie no s durante o maior de todos os espetculos do futebol  mas tambm depois dele. 

PASSEIO ARRISCADO
O Rio de Janeiro experimenta, desde o ano passado, um aumento significativo no nmero de assaltos, justamente na rota por onde passar 1,2 milho de turistas que visitaro a cidade durante a Copa (nmero de assaltos  mo armada) 
Comparao dos trs primeiros meses de 2014 com o mesmo perodo de 2013
1 Leblon/Ipanema 94%
2 Barra da Tijuca 64%
3 Copacabana 58%
4 Cristo Redentor 46%
5 Maracan 36%
Fonte: Instituto de Segurana Pblica do Rio de Janeiro

CINTURO DE PROBLEMAS
As Unidades de Policia Pacificadora prometiam tornar o Rio de Janeiro mais seguro a tempo da Copa do Mundo, mas, a um ms da competio, as favelas mais estratgicas para o programa viraram um barril de plvora, espalhando o medo na cidade.

COMPLEXO DO ALEMO
Habitantes: 110.000
Incio da UPP: Abril de 2012
Importncia: Maior central do crime no Rio,  o quartel-general do Comando Vermelho, faco cuja ao criminosa reverbera por toda a cidade.
Situao atual: Diversas reas do complexo continuam sob o domnio dos traficantes, e os tiroteios so dirios e intensos.

ROCINHA
Habitantes: 71.000
Incio da UPP: Setembro de 2012
Importncia: Central de venda de drogas para todo o estado, fica localizada numa rota muito percorrida por turistas, que faz a ligao entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca
Situao atual: A bandidagem recobrou a fora depois do caso Amarildo, que levou a populao local a desacreditar a UPR refreando os avanos

COMPLEXO DA MAR
Habitantes: 130.000
Incio da UPP: Recm-ocupado pelo Exrcito, deve receber a base receber a base da polcia em dezembro
Importncia: Todo turista que sai do aeroporto internacional em direo  cidade cruza essa rea tomada de casebres, a ltima em poder dos bandidos no chamado "cinturo da Copa
Situao atual: Os traficantes resistem ao Exrcito - cinquenta ataques contra os militares j foram registrados em um nico ms

COM REPORTAGEM DE CINTIA PIMENTA


6#6 VIDA DIGITAL  OLHA QUEM EST FALANDO
O Google agora conversa com as pessoas. Isso deixa prtica a interao com o site, mas desperta receios sobre at onde  saudvel a aproximao de humanos e mquinas.
FILIPE VILICIC

     At os anos 70, era preciso configurar pequenos cartes cheios de furos, os punched cards, para passar instrues a computadores. Quando o teclado e o mouse foram acoplados aos PCs e Macs pessoais, obra da dupla Steve Jobs e Steve Wozniak, a navegao foi simplificada, acelerando a popularizao desses aparelhos. Na ltima dcada, com inovaes como a Siri, o programa de reconhecimento de voz do iPhone, a interao com as mquinas entrou em nova era.  uma fase na qual a comunicao com computadores  cada vez mais similar  forma como falamos uns com os outros. 
     A evoluo chegou a outro patamar com uma novidade lanada pelo Google: agora, o site de buscas, alm de outros produtos da empresa, como o Maps, de geolocalizao, fala com os usurios. Mas no se trata daquela conversa de uma via, como  o monlogo com a Siri, que entende instrues limitadas e raramente d a resposta certa ao que se pede.  possvel perguntar ao Google algo como "vai chover amanh?", ou "qual  a escalao da seleo brasileira?", ou ainda realizar comandos, a exemplo de "me leve para casa". E o site responde, dizendo "vai chover amanh", "segue a escalao do Brasil" e "traando rota para a sua casa, a viagem demorar trinta minutos".  o mais prximo que j se chegou de bater um papo com o computador. 
     A novidade foi lanada primeiro em ingls, em junho do ano passado, e j ganhou verses em espanhol, italiano, francs, alemo e japons. Neste sbado, dia 10, estreia em portugus. Funciona em smartphones e tablets com Android, o sistema operacional do Google, e em iPhones, iPads, PCs e Macs, por meio do navegador de internet Chrome.  possvel procurar por qualquer informao. O site d a resposta, em portugus, com voz mecanizada, mas com sotaque brasileiro. Quando o Google no consegue computar a rplica em udio, limita-se a exibir a tradicional lista de links. Explica Bruno Pssas, engenheiro-chefe de buscas do Google e um dos lderes da equipe responsvel por fazer o site falar nosso idioma, sediada em um escritrio em Belo Horizonte: "H falhas porque  um programa em desenvolvimento, que evoluir conforme as pessoas fizerem mais e mais pesquisas, e tambm com os erros que vier a apresentar.  crucial compreender que nada se d num passe de mgica, h um complexo sistema que funciona nos bastidores cada vez que se pergunta algo". 
     Para cada questo enviada, ocorre um avanado processo de Big Data, que garimpa, na enorme quantidade de informaes armazenadas nos servidores do Google, qual  a resposta correta. Tudo acontece em microssegundos (veja na pg. 99). O primeiro desafio  transformar o udio em texto. O software separa a voz do barulho de fundo, e os fonemas, o som distinto que diferencia cada letra, e cada palavra, so analisados independentemente, e, em seguida, em conjunto, para transcrever a frase falada pelo usurio. Uma rede que combina o poder de processamento de milhes de computadores busca pela rplica mais adequada. Por fim, a resposta encontrada, ainda em formato de texto,  transposta para udio e reproduzida. Desconsiderando a variao na velocidade da internet, ou do processamento de cada aparelho, tudo leva 0,002 segundo para ser feito. 
     A mais bvia vantagem de descartar o teclado e o mouse, e substitu-los pelos comandos de voz,  a praticidade. Uma pessoa digita, em mdia, 41 palavras por minuto. Mas consegue falar 138 palavras no mesmo tempo. Uma pesquisa tpica no Google, que contm em mdia trs palavras, leva 4,4 segundos para ser digitada, mas demora apenas 1,3 segundo com o uso de voz. Alm da economia de tempo, o recurso se mostra til em situaes nas quais  difcil, por vezes perigoso, parar para olhar a tela de um smartphone e digitar o que quer. Como em uma caminhada, praticando exerccios na academia, ou no trnsito. Apesar de ser proibido usar o celular ao volante, cinco em cada dez brasileiros dizem que  nessa situao que mais acessam a internet pelo aparelho. "A mdio prazo, sero percebidas consequncias ainda mais significantes", afirma Berthier Ribeiro-Neto, diretor de engenharia do Google para a Amrica Latina. "Por exemplo, diminuiro os acidentes de trnsito, visto que a pessoa pode falar com o smartphone sem desviar o olho da rua. E a possibilidade de conversar com a mquina de forma mais natural facilitar a fluncia de nosso pensamento quando realizarmos algumas tarefas no computador", completa. 
     Notar que computadores cada vez mais se aproximam de seres humanos pode ser encarado, porm, com receio. Um medo retratado exaustivamente pela fico cientfica. No clssico do cinema noir Alphaville, de 1965, do cineasta francs Jean-Luc Godard, o computador Alpha 60 comea a falar, adquire conscincia, toma o controle de uma cidade e assume uma ditadura surreal, na qual indivduos so proibidos de ter emoes ou elaborar pensamentos abstratos  o que, no fim, os deixa dbeis. Ele  derrotado por Lemmy Caution, agente secreto que recita um poema impossvel de ser compreendido pela mquina. Em um dos requintados dilogos entre Alpha 60 e Caution, o primeiro conclama: "Eu devo calcular para que a falha seja impossvel". No que o agente replica: "Tenho de lutar para que a falha seja possvel". A falha, inaceitvel para computadores,  um trao elementar do ser humano. O tema foi modernizado em Ela, ganhador do Oscar de melhor roteiro original neste ano. No filme de Spike Jonze, o protagonista, interpretado por Joaquin Phoenix, se apaixona pelo sistema operacional de seu celular, que tem a voz da atriz Scarlett Johansson. O que,  claro, acaba prejudicando-o na vida off-line.  
     "Pode chegar a um ponto em que as pessoas no vo conseguir interagir com o ambiente sem a intermediao de um computador", pontua o escritor americano Nicholas Carr, um dos crticos mais vidos das novas tecnologias, em especial da internet. Em seu ltimo livro, The Shallows (Os Superficiais), ele defende a ideia de que o Google comeou a pensar por ns e a substituir nossa memria, afetando a capacidade cognitiva do crebro humano. Escreveu, em seu artigo "Is Google making us stupid?" (O Google est nos deixando burros?): "A internet se tornou o condutor para a maior parte da informao que passa pelos meus olhos e ouvidos e vai at minha mente. Vantagens foram descritas e aplaudidas. Mas o que a internet parece estar fazendo  eliminar minha capacidade de concentrao e contemplao". Estamos no caminho de criar computadores conscientes, que raciocinam por ns, como o Alpha 60, de Alphaville? Aposta Berthier, do Google: "Sim,  plausvel imaginar que pode ser para a que vamos. Mas prefiro no estar vivo quando isso ocorrer". 

O que acontece quando voc pergunta algo ao Google, e como ele responde em portugus
1- A pergunta: Vai chover amanh?
1,3 segundo para realizar a pergunta, pelo reconhecimento de voz
4,4 segundos  o tempo, em mdia, para digitar a mesma pergunta no Google
2- O microfone  ativado e a voz da pessoa  captada, com separao entre a fala e o barulho de fundo.
Quanto demora: 700 microssegundos [*microssegundo equivale a 1 milionsimo de segundo]
3- E feita a transposio da voz para o formato de texto, pela associao de cada fonema falado a um banco com 500 bilhes de combinaes possveis de letras e palavras.
Quanto demora: 1000 microssegundos
4- Os servidores do Google compreendem o sentido da frase e realizam a pesquisa em uma rede de mais de 3 milhes de computadores, utilizando como motor de busca um algoritmo com base em 2 bilhes de termos e 500 milhes de variveis.
Quanto demora: 200 microssegundos
5- A resposta, "Espero que chova amanh em So Paulo. A previso  de 27 graus",  primeiro computada em formato de texto para depois ser transformada no udio que  reproduzido ao usurio.
Quanto demora: 100 microssegundos
= Quanto tempo leva para ter a resposta [**Sem considerar a variao na velocidade da conexo com a internet nem o poder de processamento de cada aparelho] 0,002 segundo (2000 microssegundos)
COM REPORTAGEM DE JENNIFER ANN THOMAS


6#7 SOCIEDADE  QUINZE VEZES PRINCESA
As festas das meninas em flor ressurgiram. Agora, so superprodues temticas, que contam com cenografia rebuscada e chegam a ser at 40% mais caras que casamentos.
MARLIA LEONI

     Vestido longo e branco, valsa com o pai e quinze casais de amigos para acompanhar a dana. A descrio parece ser dos antigos bailes de debutantes, quando as meninas eram apresentadas  sociedade, mas a semelhana da festa da paulistana Luana Bibiano Anastcio com as tradicionais festas de 15 anos para por a. Da decorao do ambiente ao formato dos doces, tudo foi inspirado na linguagem visual da marca de lingerie Victoria's Secret. Ao entrarem no salo, os convidados viam um cenrio que reproduzia os bastidores do sensualssimo desfile anual da marca, em que as damas se arrumavam vestindo robe com a inscrio "Luana's Secret" bordada. Foram criadas tambm uma passarela, por onde a aniversariante desfilou com asas de anjo caractersticas das modelos-estrelas da grife, e uma loja cenogrfica igualzinha s verdadeiras, na qual ficavam os doces e as lembrancinhas. Festas temticas rebuscadas e repletas de atraes, como a de Luana, tm se tornado cada vez mais comuns entre jovens que comemoram os 15 anos e, como toda adolescente, querem algo diferente de tudo o que as amigas j fizeram ou viram. "Quando eu vi a passarela, igual  do desfile a que sempre assisti na televiso, s para mim, fiquei encantada!", emociona-se Luana. 
     Para criar a atmosfera do tema escolhido, decoradores e cerimonialistas tiram todos os truques do cesto das grandes comemoraes. "Projees mapeadas  um tipo de projeo de vdeo que pode ser feito em diversas superfcies e cria a iluso de que se est em outro ambiente , fragrncias desenvolvidas de acordo com o tema da festa para aromatizar o local e contratao de artistas que realizam performances so algumas das novidades do setor", enumera Fbio Mattar Puppi, responsvel pela decorao da festa de Luana. Tudo para seduzir as aniversariantes e incendiar o bolso dos pais. Marina Queiroz escolheu o tema Nova York Non para sua festa, que teve iluminao com a mesma tecnologia do Carnaval carioca. "Toda vez que minha me pergunta para onde eu quero ir, digo 'Nova York'. O non  porque a cidade  colorida. Adoro andar  noite e ver as luzes brilhantes da Broadway.  mgico", explica ela. Para que fosse criado o efeito das luzes de que tanto gosta, o vestido dela e o das amigas que danaram eram adornados por faixas iluminadas. "A coregrafa viu nos desfiles do Rio de Janeiro que porta-bandeiras usaram roupas com LED e sugeriu que fizssemos o mesmo. Levamos os vestidos a um costureiro da escola de samba, que aplicou as luzes e colocou a bateria na cintura. Elas s acenderam na hora da dana. Foi lindo!", conta a farmacutica Denise Queiroz, me da aniversariante. 
     Tantos detalhes tm um preo: festas de debutantes so at 40% mais caras que casamentos. "Esse tipo de festa exige dois cardpios: um para os adultos e outro para os jovens, com pizzas, crepes e comida japonesa. Tambm h o custo adicional de cenografia por causa do tema, alm de no mnimo trs vestidos, que as aniversariantes fazem questo de usar", resume Corintho Rodrigues, cerimonialista responsvel pela festa de Marina. O custo mdio de festas desse porte costuma ser de 300.000 reais, mas sempre existe algo a mais em que se pode gastar. DJs que tocam em festas famosas, num ambiente separado s para os jovens, e at um "bar" de carregadores de celular, para que ningum fique sem bateria e deixe de postar no Instagram, esto entre as vontades das jovens debutantes. Raquel Castro, empresria do ramo de estacionamentos no Rio, viajou com a filha Andressa para Las Vegas  cidade que era o tema , trazendo lembrancinhas e muita inspirao. "Tambm contratei fotgrafo e maquiador l nos Estados Unidos para fazermos as fotos que decoravam o salo", conta ela. Portas giratrias, roletas e mesas de jogos ajudavam a criar a atmosfera dos grandes hotis da antiga cidade do pecado, adorada por turistas brasileiros que no ligam a mnima para jogatina. Aniversariante e quinze amigas chegaram em uma limusine, enquanto artistas circenses faziam apresentaes, em aluso aos espetculos do Cirque du Soleil. Na hora da valsa, o pai presenteou a filha com um anel Cartier e uma dana com o gal Rodrigo Simas. " um gasto alto, mas meu marido disse que faria tudo de novo", assume Raquel. 
     Essas festas, praticamente desaparecidas na altura dos anos 80, quando a grande ambio das adolescentes era conhecer a Disney, voltaram com fora nos ltimos cinco anos. "Atualmente, as mulheres se casam tarde ou no se casam. Os pais querem proporcionar o sonho de uma grande festa  filha, na qual eles possam participar das decises", explica Puppi. As mes, de fato, esto entre as maiores entusiastas do evento. "Quando eu fiz 15 anos, meus pais eram pobres e eu no pude ter uma festa. Se minha filha no quisesse uma, eu no a obrigaria a fazer, mas ela quis, e foi a realizao do meu sonho fazer uma festa de princesa", diz Denise Queiroz. O desejo de realizar sonhos familiares, impressionar os amigos e  por que no?  dar uma ostentadazinha perpassa as classes sociais. "As festas de 15 anos correspondem a 65% de todos os eventos que realizamos", diz Lucas Sousa Cndido, gerente de uma rede de trs sales na Zona Leste de So Paulo. Ele explica que a arraigada instituio do credirio d uma ajuda aos pais de oramento controlado. " possvel organizar uma festa com comida, bebida, DJ e decorao por 10.000 reais, parcelados em at dezesseis vezes. 


6#8 SADE  SEMPRE H O QUE SER FEITO
Crianas brasileiras vtimas de doenas crnicas graves j podem contar com servios mdicos especializados em minorar as agruras fsicas e psicolgicas de sua condio. 
NATALIA CUMINALE

     Aos 14 anos, Jaqueline Tebaldi tem os hbitos tpicos das meninas de sua idade. Adora maquiagem, sobretudo as de cor rosa-clarinho. Vidrada no celular (rosa brilhante), vive a vaguear pelas redes sociais e a trocar mensagens com os amigos. Seus filmes prediletos so as comdias romnticas. Sonha em entrar na faculdade e cursar medicina. Ao contrrio da imensa maioria dos que atravessam a adolescncia, aquela fase em que ns nos sentimos imortais e poderosos, Jaqueline reflete sobre a finitude e a fragilidade da vida. Aos 2 anos, ela foi diagnosticada com fibrose cstica, um distrbio hereditrio, sem cura e, em geral, precocemente fatal. A doena atinge sobretudo os pulmes. "Desde pequena, sei o que eu tenho. Quando eu era internada, via outras crianas com problema igual ao meu.  difcil ver meus amigos indo embora", diz ela. "Sempre me pergunto: quando ser que eu vou tambm?" Com o vigor caracterstico dos jovens, Jaqueline no se entrega. Como quer entrar na fila do transplante, segue  risca uma rotina rigorosa (e penosa) de tratamento  sesses dirias de inalao e diversos medicamentos. Atualmente, com a piora de sua capacidade respiratria, a menina est presa a um cilindro de oxignio. Por causa do trambolho (incmodo, mas indispensvel), ela se afastou da escola, onde tocava na fanfarra, do curso de ingls e das aulas de dana. Em breve, assim que se adaptar  nova condio, Jaqueline pretende voltar a estudar. E, quando isso acontecer, no primeiro dia de aula ela estar acompanhada por alguns dos profissionais de sade da Santa Casa de So Paulo encarregados de seu caso. Eles devem explicar aos colegas de classe da adolescente tudo sobre a fibrose cstica. "Vai ser bom porque muita gente pensa que a minha doena  contagiosa... As pessoas me olham com cara de d", diz. "Com o tubo ou sem o tubo, eu sou a mesma coisa." 
     A ateno dos mdicos, fisioterapeutas e psiclogos na adaptao de Jaqueline  nova rotina pode soar incomum em um tratamento mdico. Mas no . Esse tipo de preocupao  parte essencial de uma das reas mais humanitrias da medicina moderna, a dos cuidados paliativos. Do latim pallium, nome dado ao manto que os cavaleiros utilizavam para se proteger do mau tempo, os cuidados paliativos pretendem aplacar o sofrimento causado pelos sintomas e pelas sequelas de uma doena grave, que ameaa a vida. O tempo de sobrevida do paciente  relativo. "Na pediatria, a durao da doena  mais imprevisvel do que entre os adultos", diz a pediatra Silvia Barbosa, chefe do departamento de cuidados paliativos do Instituto da Criana, da Universidade de So Paulo. Surgida na Inglaterra, no fim dos anos 60, a prtica s chegaria s crianas vinte anos depois, com a inaugurao, em Oxford, da fundao Helen and Douglas House. No Brasil, ela ainda est em seus primrdios, com, no mximo, trinta especialistas no pas todo. 
     Se j  difcil aceitar a morte, a de uma criana torna-se inconcebvel. A interrupo da vida em seu esplendor soa uma ofensa, uma cruel inverso das leis da natureza. At um passado relativamente recente, no era assim. Devido  falta de controle das doenas infecciosas, os bitos infantis eram comuns. E, por isso, chocavam menos. A partir dos sculos XIX e XX, com os avanos trazidos pelo saneamento bsico e o surgimento das vacinas, as crianas foram salvas da febre tifide, coqueluche, varola, tifo, sarampo... Com os progressos nos diagnsticos e tratamentos mdicos, doenas at ento consideradas incurveis foram vencidas. No anos 70, a leucemia representava uma sentena de morte. Hoje, 80% dos pacientes se curam. O incmodo com a terminalidade precoce ainda acomete muitos especialistas. "O prolongamento da vida por meios artificiais  algo ainda frequente na pediatria brasileira", diz Maria Goretti Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. "A medicina mascarou a morte e a transformou em agonia na UTI." Raros so os mdicos que reconhecem, no pronturio de seus doentes: "Sem possibilidade de cura". 
     O casal Waldir e Priscila Beira soube a hora de parar. Quando o segundo filho, Francesco, completou 1 ano e 5 meses, a famlia recebeu a notcia de que o beb era portador de um cncer no crebro. Durante os oito anos seguintes, o menino passou por sete cirurgias e vrias sesses de quimioterapia. Mesmo nesse perodo, na medida do possvel, ele conseguiu ir  escola, viajar, jogar tnis e praticar natao. Em 2009, Francesco piorou. No conseguia mais comer e respirar sem a ajuda de aparelhos. As idas ao hospital viraram rotina. "Quando percebemos que no havia mais possibilidade de recuperao, mantivemos apenas o essencial, como a fonoaudiologia, para estimular a deglutio e ele ter pelo menos o prazer da comida", conta Priscila. No fim de 2010, Francesco fez o pai prometer que, no Natal, ele iria para casa. "O hospital no tinha mais nada a oferecer a meu filho", lembra Waldir. "A luz acesa 24 horas, enfermeiros entrando e saindo do quarto, protocolos mdicos inadiveis... Quando o levamos para casa, ele pde descansar. Estvamos o tempo todo ao seu lado. Francesco podia conviver e brincar com as duas irms." A deciso de Waldir e Priscila de levar o menino de volta para casa no foi bem recebida pelos mdicos. "Chegaram a dizer que estvamos desistindo do nosso filho", diz o pai. Ao contrrio. Francesco morreu aos 11 anos, no dia 13 de fevereiro de 2011, em casa, cercado pela famlia. Em paz. 
     A conscincia sobre a morte torna-se mais aguada com o avanar da idade. A partir dos 7 anos, em geral, as crianas tm a compreenso de que o fim  irreversvel. Aos 10 anos, j o associam  degenerao do organismo. "Na adolescncia, o paciente tem a clara percepo de que sua vida ser interrompida ainda no auge", diz a psicloga Dbora Genezini, do Hospital Samaritano e do Instituto Paliar, ambos em So Paulo. Para os pais,  devastador. "Nesses momentos, o apoio profissional  famlia  imperativo", disse recentemente a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, em visita a um centro de cuidados paliativos em Sydney, na Austrlia. A duquesa tem o tema como sua causa mais importante. A assistncia costuma se estender at depois da morte. O luto  acompanhado de perto pelos especialistas. "S  possvel ver a diferena que fizemos na vida dos pais depois que o trabalho com a criana termina", diz Ana Paula de Souza, anestesista e diretora do centro de tratamento de dor e cuidados paliativos infantil da Santa Casa de So Paulo. 
     Em fevereiro de 2010, o empresrio Carlos Fernando Gouvea juntou-se  equipe do Hospital Samaritano para realizar o sonho da filha Gabriela, de 13 anos, portadora de leucemia desde os 10. Vtima de uma hemorragia, a adolescente tinha poucos dias de vida, segundo o prognstico mdico. Foi ento que Gouvea e os especialistas conseguiram levar o msico Eduardo Surita, ento dolo adolescente, para visitar a garota no hospital  era com ele que Gabriela pretendia danar a valsa dos 15 anos. Para o encontro, ela escolheu um pijama novo, maquiou-se e fez as unhas. Depois da visita dele, os dois ainda mantiveram contato, pela internet. E os poucos dias de vida se estenderam por mais um ms. Nesse perodo, Gabriela viveu bem. Feliz. "Depois dessa visita, a presso da minha filha estabilizou-se, ela recebeu alta da UTI e voltou a se alimentar normalmente... Pediu at para comer sushi", lembra o pai. Aceitar os cuidados paliativos no significa desistir. " reconhecer que o paciente  muito mais do que a sua doena", diz Ana Claudia Arantes, especialista em cuidados paliativos do Hospital das Clnicas. Sempre h o que ser feito. Acompanhar Jaqueline na volta  escola, levar Francesco para passar o Natal em casa e apresentar Gabriela a seu dolo. 

TRANQUILIDADE NOS MOMENTOS DIFCEIS 
"No ano passado, entrei para os cuidados paliativos. Passei a receber uma ateno diferente. Em uma das minhas internaes, uma amiga do hospital morreu com a mesma doena que eu tenho. Isso aconteceu de madrugada. No dia seguinte, quando acordei, minha mdica j estava no quarto. Ela fez questo de conversar comigo e tirar todas a dvidas que passavam pela minha cabea. Ela me tranquilizou muito." - JAQUELINE TEBALBI, 14 anos, portadora de fibrose cstica.

SUPER-HERI 
Aos 5 anos, o americano Miles Scott tem leucemia. Em 2013, graas  ONC Make-a-Wish, que realiza os desejos de crianas gravemente doentes, ele viveu um dia de Batkid ao lado de Batman, seu super-heri favorito. Circularam pelas ruas de So Francisco, derrotaram bandidos e at salvaram uma donzela.

AMBIENTE MAIS ACOLHEDOR
"Graas  equipe de cuidados paliativos, a internao de minha filha foi menos sofrida. Ela no tinha restries para receber visitas e pudemos decorar o quarto de l com seus objetos preferidos: o painel de fotos e as almofadas. Com a morte de Gabriela, nunca mais serei feliz, mas  reconfortante saber que ela foi to bem assistida." - SANDRA GOUVEA (com o marido, Carlos), me de Gabriela, que morreu, em 2010, vtima de leucemia.

BEIJOS E ABRAOS EM CASA
"Ao percebermos que nada mais poderia ser feito no hospital, levamos Francesco para casa. L podamos deitar na cama com ele, abra-lo, beij-lo. Ele era apaixonado pelo filme Carros, e montamos uma coleo de carrinhos. Nosso passatempo era comprar novos modelos pela internet. Ele teve mais de 500." - WALDIR BEIRA (com a mulher, Priscila), pai de Francesco, que morreu, em 2011, vtima de um cncer no crebro.


6#9 GUSTAVO IOSCHPE  PROFESSORES, ACORDEM!
     Normalmente escrevo esta coluna pensando nos leitores que nada tm a ver com o setor educacional. Fao isso, em primeiro lugar, porque creio que a educao brasileira s vai avanar (e com ela o Brasil) quando houver demanda pblica por melhorias. E, segundo, porque nos ltimos anos tenho chegado  concluso de que falar com o professor mdio brasileiro, na esperana de trazer algum conhecimento que o leve a melhorar seu desempenho,  mais intil do que o proverbial pente para careca. No deve haver, nos 510 milhes de quilmetros quadrados deste nosso planeta solitrio, um grupo mais obstinado em ignorar a realidade que o dos professores brasileiros. O discurso  sempre o mesmo: o professor  um heri, um sacerdote abnegado da construo de um mundo melhor, mal pago, desvalorizado, abandonado pela sociedade e pelos governantes, que faz o melhor possvel com o pouco que recebe. Hoje fao minha ltima tentativa de falar aos nossos mestres. E, dado o grau de autoengano em que vivem, eu o farei sem firulas. 
     Caros professores: vocs se meteram em uma enrascada. H dcadas, as lideranas de voc  vm construindo um discurso de vitimizao. A imagem que vocs vendem no  a de profissionais competentes e comprometidos, mas a de coitadinhos, estropiados e maltratados. E vocs venceram: a populao brasileira est do seu lado, comprou essa imagem (nada seduz mais a alma brasileira do que um coitado, afinal). Quando vocs fazem greve  mesmo a mais disparatada e interminvel , os pais de alunos no ficam bravos por pagar impostos a profissionais que deixam seus filhos na mo; pelo contrrio, apoiam a causa de vocs.  uma vitria quase inacreditvel. Mas prestem ateno: essa  uma vitria de Pirro. Porque nos ltimos anos essa imagem de desalento fez com que aumentassem muito os recursos que vo para vocs, sem a exigncia de alguma contrapartida da sua parte. Recentemente destinamos os royalties do pr-sal a vocs, e, em breve, quando o Plano Nacional de Educao que transita no Congresso for aprovado, seremos o nico pas do mundo, exceto Cuba, em que se gastam 10% do PIB em educao (aos filocubanos, saibam que o salrio de um professor l  de aproximadamente 28 dlares por ms. Isso mesmo, 28 dlares. Os 10% cubanos se devem  falta de PIB, no a um volume de investimento significativo). 
     Quando um custo  pequeno, ningum se importa muito com o resultado. Quando as coisas vo bem, ningum fica muito preocupado em cortar despesas. E, quando a rea  de pouca importncia, a presso pelo desempenho  pequena. No passado recente, tudo isso era verdade sobre a educao brasileira. ramos um pas agrcola em um mundo industrial; a qualificao de nossa gente no era um elemento indispensvel e o pas crescia bem. Mas isso mudou. O tempo das vacas gordas j era, e a educao passou a ser prioridade inadivel na era do conhecimento. Nesse cenrio, a chance de que se continue atirando dinheiro no sistema educacional sem haver nenhuma melhora, a longo prazo,  zero. Vocs foram gananciosos demais. Os 10% do PIB e os royalties do pr-sal sero a danaco de vocs. Porque, quando essa enxurrada de dinheiro comear a entrar e nossa educao continuar um desastre, at os pais de alunos de escola pblica vo entender o que hoje s os estudiosos da rea sabem: que no h relao entre valor investido em educao  entre eles o salrio de professor  e o aprendizado dos alunos. A esses pais, e a mdia, vo finalmente querer entrar nas escolas para entender como  possvel investirmos tanto e colhermos to pouco. Vo descobrir que a escola brasileira  uma farsa, um depsito de crianas. Vero a quantidade abismal de professores que faltam ao trabalho, que no prescrevem nem corrigem dever de casa, que passam o tempo de aula lendo jornal ou em rede social ou, no melhor dos casos, enchendo o quadro-negro de contedo para aluno copiar, como se isso fosse aula. E ento vocs sero cobrados. Muito cobrados. Mas, como tero passado dcadas apenas pedindo mais, em vez de buscar qualificao, no conseguiro entregar. 
     Quando isso acontecer, no esperem a ajuda dos atuais defensores de vocs, como polticos de esquerda, dirigentes de ONGs da rea e alguns "intelectuais". Sei que em declaraes pblicas esse pessoal faz juras de amor a vocs. Mas, quando as luzes se apagam e as cmeras param de filmar, eles dizem cobras e lagartos. 
     Existem muitas coisas que vocs precisaro fazer, na prtica, para melhorar a qualidade do ensino, e sobre elas j discorri em alguns livros e artigos aqui. Antes delas, seria bom comearem a remover as barreiras mentais que geram um discurso ilgico e atravancam o progresso. Primeira:  se vocs so vtimas que no tm culpa de nada, tambm no podero ser os protagonistas que tero responsabilidade pelo sucesso. Se so objetos do processo quando ele d errado, no podero ser sujeitos quando ele comear a dar certo. Se vocs querem ser importantes na vitria, precisam assimilar o seu papel na derrota. 
     Segunda: vocs no podem menosprezar a cincia e os achados da literatura emprica sempre que, como na questo dos salrios, eles forem contrrios aos interesses de vocs. Ou vocs acreditam em cincia, ou no acreditam. E, se no acreditam  se o que vale  experincia pessoal ou achismo , ento vocs so absolutamente dispensveis, e podemos escolher na rua qualquer pessoa dotada de bom-senso para cuidar da nossa educao. Vocs so os guardies e retransmissores do conhecimento acumulado ao longo da histria da humanidade. Menosprezar ou relativizar esse conhecimento  cavar a prpria cova. 
     Terceira: parem de vedar a participao de terceiros no debate educacional.  inconsistente com o que vocs mesmos dizem: que o problema da educao brasileira  de falta de envolvimento da sociedade. Quando a sociedade quer participar, vocs precisam encoraj-la, no dizer que s quem vive a rotina de "cuspe e giz"  que pode opinar. At porque, se cada rea s puder ser discutida por quem a pratica, vocs tero de deixar a determinao de salrios e investimentos nas mos de economistas. Acho que no gostaro do resultado... 
     Quarta: abandonem essa obsesso por salrios. Ela est impedindo que vocs vejam todos os outros problemas  seus e dos outros. O discurso sobre salrios  inconsistente. Se o aumento de salrio melhorar o desempenho, significa que ou vocs estavam desmotivados (o que no casa com o discurso de abnegados tirando leite de pedra) ou que  preciso atrair pessoas de outro perfil para a profisso (o que equivale a dizer que vocs so inteis irrecuperveis). 
     O respeito da sociedade no vir quando vocs tiverem um contracheque mais gordo. Vir se vocs comearem a notar suas prprias carncias e lutarem para san-las, dando ao pas o que esperamos de vocs: educao de qualidade para nossos filhos.
GUSTAVO IOSCHPE  economista


